segunda-feira, 11 de julho de 2011

As Letras Maiúsculas dos Últimos Momentos

  Não me resta muito Tempo. Cada pedaço de mim exclama: "Você está morrendo! Faça algo!". Mas se tem algo que aprendi com o Tempo é que Paciência nos ajuda a aceitar o inevitável... Alguns (penso que com má intenção) perguntam-me se tenho Medo. Apenas lhes respondo que a Morte nunca foi minha Inimiga. Eu que vivi intensamente, perigosamente, nunca poderia temer a Morte... Outros (esses, acho, realmente preocupados) perguntam-me a exata questão: O que eu temo? Se não a Morte, o que eu temo? Acho que nesses últimos dias (literalmente) o Medo foi o primeiro a morrer. E mais, tenho esperanças de que a Esperança realmente seja a última, embora eu não guarde a versão falsa dela que me diz que ela não morrerá.

  Na realidade, minto ao dizer que o Medo se foi. É inevitável querer enganar a si mesmo quando se está a beira da Morte (ou em qualquer Momento Difícil da vida). O Medo constante me ronda, mas não da Morte, já fiz as pazes com ela muito tempo atrás. O que me assombra é a alma viva daqueles que continuarão nesse mundo. São eles com suas delicadezas ele-está-morrendo que me matam (um homem a beira da Morte também tem direito à algumas gracinhas, ou não?). Eu não sou de vidro! Me deixem ser homem uma última vez na Vida! Me deixem aflorar meu instinto de homem das cavernas. Deixem-me correr atrás da minha própria comida, prepará-la e comer da maneira que me convém. Afinal, o que é a Etiqueta pra quem está a beira da Morte? Sei que não tenho Tempo para as coisas grandes, mas são essas pequenas que importam. O Conhecimento de que, à beira da Morte, eu me fiz merecedor das pequenas coisas que me trouxeram alegria na Vida. Então deixem-me, que quero tornar esses últimos momentos só meus. A Sociedade já me declara um homem morto, me excluem expressamente e depois me vem com seus mimos. Que se fodam, todos eles! Não viverei meus últimos momentos pelos outros. Não me comportarei como o homem morto que vocês querem. Minha Educação ocupa muito espaço nas minhas emoções que morrem pouco a pouco, e eu estou tão por dentro de afogá-la precocemente.

  Sei que perdi muito tempo com minhas Palavras. Mas sei também que todo esse tempo me deu a última chance de me sentir vivo. Porque as Palavras são vivas e elas sim merecem meus Últimos Momentos. Estou confortado em saber que, finalmente, sou apenas delas, elas que são minha paixão verdadeira de toda a vida. Nunca vivi por Família, Amantes ou Amigos. Sempre os troquei pelas Palavras e foi isso que me transformou num homem morto. Porque não há mais ninguém para sentir minha falta e, consequentemente, mentir a si mesmo (como em todo Momento Difícil) que eu não estou à beira da Morte. Isso bloquearia a declaração da Sociedade de que eu já não estou mais entre as almas vivas, não porque teriam dó de mim ( a Sociedade não tem dó de quem não pode dar-lhe nada em troca), mas do meu "Ente Querido" a quem eu estaria fazendo sofrer se estivesse "declaradamente morrendo". Muito idiota, mas idiotamente funcional.

  Que seja, não vou fingir que me importo mais. Preocupação com o coletivo nunca foi meu forte e não vou deixar essa coisa inútil tomar conta das minhas emoções mais importantes, o oxigênio para meus Últimos Suspiros. Apesar de minha cética posição pré-Morte, ainda acredito no Amor, sim. O que teria sido da minha Vida sem Amor? Vida, Amor... Uma relação inseparável, mesmo diante de todos os obstáculos impostos. Não falo do Amor Romântico, aliás, não falo apenas dele, mas de todos os tipos de Amor possíveis e imagináveis. Ele sim é o combustível da Vida. E feliz é aquele que percebe isso, porque apesar de todas as maldições do Amor, é ele que nos traz mais Alegria na Vida, quando ocorre de aparecer. Pobre daqueles que não percebem isso em Tempo. Quando o percebem, já é tarde demais para amar, tarde demais para apreciar o Amor. Dessa culpa eu não morro. Amei intensamente todos os dias da minha vida minha Família, meus Amigos, minhas Amantes, todos belos e tão merecedores de Amor, cada um a seu modo. Embora, esnobei aqueles que me amaram de volta... Isso sim corrói o pouco que me resta. E relembrando essa culpa, já não me sinto mais tão forte. Aliás, acho que apenas já chegou minha hora. Descansarei meu lápis na mesa pela última vez, e colocarei um ponto final definitivo em minhas Palavras, embora me doa, embora eu já sinta falta...
Enquanto vivo, tudo era reticências. Agora, que estou a pouco segundos... Ah, sim, acaba de chegar quem mais sabe sobre pontos finais... Venha, minha querida, ajude esse pobre pupilo de suas próprias Palavras... Tantas reticências pela Vida, e, então, o final.

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